Ateliê ou empresa? Saiba como funciona o estúdio da portuguesa Joana Vasconcelos

Alguns ateliês são grandes o suficiente para comportarem um grupo de assistentes, que produzem junto ao artista e transformam sua criação em algo possível. Já sabemos que muitos desses artistas nem colocam a mão na massa. Mais do isso, porém, existem alguns sortudos que realmente transformaram seu estúdio numa empresa: ali funcionam diversas equipes, com infraestrutura própria e específica, que participam de uma linha de produção criativa e, normalmente, megalomaníaca. Podemos contar nos dedos os artistas do mundo que têm esse tipo de estrutura – e a portuguesa Joana Vasconcelos (@joana_vasconcelos_official) está entre eles.

Ateliê de Joana Vasconcelos, em novembro de 2018 (Foto: Julia Flamingo)

OITO MÃOS E UMA SÓ OBRA

No porto de Lisboa, a porta que leva para o estúdio de Joana Vasconcelos engana. É só depois de passar a primeira sala que pode se começar a entender a escala do estúdio. Quatro pessoas trabalham num coração pesadíssimo que pende do teto  e que, aberto, revela nas suas entranhas toda a tecnologia necessária para que ele acenda conforme os batimentos cardíacos, gire lentamente num pedestal e sustente todo o brilho, luz e cores que marcam a estética de Joana (veja na foto acima). A obra que será apresentada em Paris nas próximas semanas teve seus azulejos feitos à mão para que pudessem acompanhar as curvaturas no formato do coração.

ARTISTA MULHER!

Seus trabalhos de escala monumental costumam usar elementos do universo feminino, além de aliar tecnologia às técnicas ou símbolos tradicionais portugueses. Em 2012, ela foi a primeira e mais jovem mulher a expor no Palácio de Versailles, na França, onde ocupou as salas suntuosas com sapatos gigantes formados por panelas e lustres de cristal criados a partir de absorventes internos (apesar de nascida em Paris, em 1971, Joana é considerada uma artista portuguesa). Se, na época, seu estúdio contava com 20 assistentes, depois da mostra em Versailles o número dobrou. A mostra no Palácio Nacional da Ajuda, no ano seguinte, levou esses trabalhos para Portugal e é uma das exposições mais faladas até hoje, no que concerne escala e ocupação do espaço.

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E POR QUE NÃO, EMPREENDEDORA

No estúdio em Lisboa – um antigo armazém de cereais – trabalham 55 pessoas. São arquitetos, engenheiros, costureiros e bordadeiras,  marceneiros, restauradores e eletricistas, além dos departamentos de comunicação e arquivo, administrativo e financeiro, e produção (além de refeitório, os funcionários gozam de um espaço de bem-estar, com aulas de yoga, kickboxing e terapia). A separação dos espaços, a organização do material (imagine a quantidade de pelúcia, tecidos, brilhos e missangas que estão ali!), o registro de todo o processo de produção…quando se visita as instalações se nota que, além de criadora, Joana é uma mulher empreendedora e visionária. Três características marcam essa produção em escala surpreendente: a maior disponibilidade de obras no mercado; a produção de trabalhos sob encomenda; e a confecção de trabalhos de grandes dimensões.

SÓ TENDE A CRESCER

Sem galeria para a representar em Portugal (no Brasil, sua obra é comercializada pela Casa Triângulo), a artista realiza a venda de suas obras no próprio estúdio. Seus assistentes deixam clara a possibilidade da produção de obras de acordo com as preferências do cliente. O espaço também tem uma equipe voltada para a Fundação Joana Vasoncelos, criada há 5 anos, e voltada para o apoio de estudantes de artes visuais com doação de bolsas de estudo. Catálogos e publicações também são feitos ali. Ou seja, apesar de gigante, é interessante notar que o ateliê está totalmente sob controle da artista – e é exatamente por isso que ela mantém seu sucesso. Aposto que não deve demorar para que sua fundação se torne o museu Joana Vasconcelos!

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