Estamos apenas nos referindo à cor quando usamos o termo “cubo branco”?

Quase todas as galerias têm a estética mais ou menos parecida: paredes, teto e piso brancos, luz artificial (e uma ou outra janela), arquitetura contemporânea e muito espaço livre para circular. O jargão “Cubo branco” criado por Brian O’Doherty é tão perfeito para definir estes espaços, que é usado a torto e a direito por qualquer pessoa que queira se referir a eles. Mas sobre o que eles estava falando além da cor quando criou este termo?

PAREDE BRANCA

Quando um espaço tem informação demais, é bem comum que nossos olhos fiquem fora de foco. Em museus dos séculos 18 e 19, as obras de arte apresentadas competem com os pisos, tetos e paredes adornados. No ambiente branco – quase asséptico – da galeria, nossos olhos encontram foco facilmente, a obra, apesar de que muitos prédios arrojados e assinados por arquitetos contemporâneos podem ser um deleite por si só. Ali também é muito mais simples montar peças de qualquer cor, suporte e formato, e transformar rapidamente o espaço “neutro” numa exposição com narrativa visual própria. A ideia ao entrar num destes ambientes da arte contemporânea é deixar para trás a confusão da cidade e, por alguns minutos, existir num novo universo. Já teve esta sensação?

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ELEFANTE BRANCO

Uma galeria é uma mistura da santidade de uma igreja, a formalidade de um tribunal e a aura mística de um laboratório experimental, embalados num design descolado. Esta é uma das definições que o crítico irlandês Brian O’Doherty deu para as galerias no artigo “Inside the White Cube: the ideology of the gallery space”, publicado em 1976, na revista Artforum. O texto tornou claras as dinâmicas já existentes em galerias de arte do mundo inteiro. Para ele, a aparente neutralidade da parede branca é uma ilusão: ela representa uma comunidade com ideias e valores sociais e estéticos comuns. Ou seja, cada pedaço de parede branca representa mercado, poder, exclusividade e hostilidade. Provavelmente, os diretores destes espaços não ficaram muito felizes com a publicação do artigo…

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BANDEIRA BRANCA

“Para muitos de nós a galeria ainda transmite vibrações negativas quando passamos pela sua porta”, escreve O’Doherty. Ele acredita que essa sensação tenha a ver com a dinâmica persistente da galeria para manter seu status quo. Hoje, porém, muitos espaços do mercado de arte já ergueram sua bandeira de querer abrir suas portas para qualquer interessado e deixar à vontade os visitantes que queiram apenas ver (e não comprar) suas obras. Ao contrário do que se pode pensar, muitos funcionários têm prazer em receber seus visitas e respondem perguntas das mais óbvias, assim como sabem que suas trabalhosas exposições merecem ser vistas por um número cada vez maior de pessoas. Para muitas galerias, a exclusividade vem sendo substituída por parcerias, preços mais acessíveis e receptividade. Vale a pena levantarmos também a nossa bandeira branca e testar – cada espaço do cubo branco pode oferecer um bom material para o nosso repertório!

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