Existe performance sem performer?

Se Marina Abramovic (@abramovicinstitute) aproveitava mais alguns minutos de sua fama ao distribuir autógrafos na sua individual no Palazzo Strozzi, em Roma, seu sucesso também se mostrou o outro lado da mesma moeda: no último dia 23 de setembro, enquanto assinava os livros da mostra para uma fila interminável de pessoas, foi atacada por um artista, que bateu em sua cabeça com o retrato dela mesma. Marina não se machucou, está certo – o material era algo como um papel-cartão. Mas a polêmica deu muito pano para a manga. Enquanto o público achava que aquilo era uma performance organizada pela artista (por que não?), o tcheco Vaclav Pisvejc dizia que a ação era parte de sua arte (uma performance?). Se Abramovic não fosse uma artista-celebridade, mas uma artista que apenas assinasse suas obras, será que teria sido vítima de um ato tão passional?

ARTISTA-CELEBRIDADE

O episódio (que chega a ser bem engraçado) cai como uma luva para o repertório da exposição Fundo Falso, de Renan Marcondes (@renanmarcndesc). Em cartaz na Adelina Instituto Cultural, em São Paulo, até o dia 20 de outubro, a mostra investiga em imagens e instalações o que é a performance hoje. Estudioso da linguagem (para Renan, mais do que uma linguagem, a performance é um procedimento), o artista era protagonista dos seus próprios trabalhos e, de pouco a pouco, foi desvencilhando sua imagem das suas performances. Por vezes, colocando outros artistas em seu lugar ou mostrando apenas registros. Assim, ele investiga: numa performance, é possível que a obra seja mais importante do que a figura do artista? Exemplos como o de Marina Abramovic mostram que, no caso da artista-celebridade, o trabalho não pode ser separado da sua polêmica figura.

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É TUDO VERDADE?

O trabalho Timeline, de Renan Marcondes, faz uma miscelânea de fotos que podem ser ligadas à palavra performance: de Ai Weiwei, com o famoso registro em que derruba intencionalmente um vaso chinês de 2000 anos, a uma corrida de cavalos (segundo o filósofo francês Bernard Stiegler, o termo “performance” começou a ser usado em 1876, na França, para indicar o bom desempenho dos animais). O conjunto de imagens não é totalmente real: ele brinca com o fenômeno do Deepfake que, por meio da inteligência artificial, torna possível alterar expressões e associar qualquer fala a qualquer rosto. Aí podemos pensar: se tudo pode ser editado, será mesmo que a performance é mais real do que outras linguagens da arte? Em Fundo Falso, você passa mesmo a achar que não!

ATIRE!

Em 1971, o americano Chris Burden fez a performance Shoot, na qual pediu que um amigo atirasse em seu ombro em nome da arte. Uma câmera de vídeo registrou o artista e seu cúmplice organizando uma das performances mais emblemáticas da história. O momento do tiro, porém, vem com um blackout da tela. Se Burden foi mesmo acertado, isso não importa: a intenção já era alertar sobre as novas interpretações e verdades dos trabalhos performáticos (além, é claro, de levantar a discussão sobre os limites de um artista a fim de realizar um trabalho realmente chocante).

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FAÇA VOCÊ MESMO

Voltando para Fundo Falso, de Renan Marcondes: ali, o visitante é convidado a colocar óculos em que as lentes são substituídas por lixas e a raspar da parede, onde estão impressas frases ditas por protagonistas da arte, a palavra “performance”. Na exposição metalinguística, quem participa da performance, então, não é o artista: os “performers” são os próprios visitantes. É assim que limites entre o artista-celebridade e os espectadores incógnitos começam a se dissolver. Dica: esta discussão vai longe. Por isso, não deixe de pegar um exemplar da publicação A sociedade da performance, mais um trabalho da exposição, e de participar do debate com o artista e a curadora Galciani Neves, no dia 20 de outubro.

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