O que é arte sonora?

Uma característica intrínseca à arte contemporânea é a falta de limite entre linguagens. Performance pode parecer dança ou teatro, videoarte anda de mãos dadas com o cinema, e arte sonora também pode ser chamada de música experimental. Criadores de qualquer um desses grupos buscam experiências artísticas sem se importar com rótulos. No caso da arte sonora, artistas e músicos trabalham a escuta: barulhos, ruídos, sons, fala e música despertam outros tipos de percepção e atenção:

MÚSICA OU ARTE?

Entre os dias 20 e 23 de setembro, aconteceu o festival de arte sonora ambiental Lisboa Soa, em Portugal. O evento anual ocupa espaços relacionados à natureza com instalações sonoras, concertos e performances. O português Ricardo Jacinto (@polvolato) – mistura de arquiteto, artista visual e músico – fez uma performance com um violoncelo, tocando não somente as cordas, mas explorando as vibrações de todo o instrumento com um sistema poderoso de amplificação. Como num concerto, a performance dele ali é primordial. Mas, a ideia era explorar o som para além do que estamos acostumados.

Se o público ouvia uma música experimental ou arte sonora é difícil dizer. O melhor jeito de rotular (se você achar realmente necessário) é olhar para o circuito onde a obra é apresentada: a performance do violoncelo, por exemplo, era parte de um festival de arte.

PARA OS OUVIDOS E PARA OS OLHOS

A arte sonora é sempre um resultado da relação entre a produção de arte e o ambiente. Apesar de seu objeto principal ser imaterial (as ondas sonoras), esse tipo de arte é, em alguma medida, uma ocupação espacial: seja por conta do aparelho que emite o som gravado (uma caixa acústica, uma vitrola), porque uma pessoa apresenta fisicamente uma performance que emite sons ou quando o trabalho é uma instalação.  Às vezes vale fechar os olhos para escutar melhor, outras é necessário os para dar maior atenção à estética da obra. No caso da performance de Ricardo Jacinto, o reservatório Mãe D’Água das Amoreiras, datado de 1834, tinha um quê de sagrado (veja a foto acima) e uma acústica excelente.

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SONORA E SILENCIOSA

Melhor exemplo para entender a arte sonora é o trabalho de John Cage, o compositor americano que, em 1952, apresentou 4’33’’. Uma orquestra completa de músicos, segue a partitura com os olhos, passa as páginas com os dedos e agradece ao final do tempo indicado no título do trabalho. Mas de lá, não sai som algum. Cage estava interessado não na música e na orquestra, mas no público e sua reação.

QUEM MAIS?

A escocesa Susan Philipsz foi o primeiro nome da arte sonora a ganhar o Turner Prize, em 2010 (um dos mais relevantes do mundo, o prêmio condecora um nome britânico anualmente desde 1984). Ela trabalha em cima de musicas como folk e até assinadas por David Bowie para entender de que maneira os sons ativam a memória e as emoções. Em Lowlands, transmitia uma música do século 16 embaixo de pontes, em Glasgow (assista aqui um vídeo sobre o trabalho). Surda desde o nascimento, a americana Christine Sun Kim (@chrisumkim) só faz trabalhos cujo protagonista principal é o som ou a falta dele, como Face Opera, “cantada” somente com expressões faciais. No Brasil, o grupo O Grivo cria engenhocas do tamanho de maquetes que, ao funcionarem mecanicamente, produzem ruídos. Essas máquinas são apresentadas como instalações de museus, mas também produzem trilhas sonoras de  filmes, como aqueles produzidos pelo cineasta Cao Guimarães (@caoguimaraes).

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