Escultura de papel machê pode estar no museu?

Tarefa bem recorrente das aulas de arte na escola é fazer criações com papel machê, aquela massa de papel com água e cola. Agora, imagina entrar num museu como o Centre Pompidou, em Paris, e ver esculturas inteiras feitas com esse mesmo material barato, sem sofisticação e que remete à sua infância ou à decoração de festas populares. Isso é arte ou uma grande enganação? Afinal, ao entrar num museu, você espera ver peças elaboradas, não é?

Vista da exposição de Franz West, em cartaz no Centre Pompidou, em Paris, até dezembro de 2018 (Foto: Julia Flamingo)

ESCULTURAS LEGÍTIMAS

Em cartaz no Centre Pompidou até dezembro, um dos mais importantes museus de arte moderna e contemporânea da França, está a maior individual já dedicada a Franz West (1947-2012). Nada menos do que duzentas obras, entre colagens, instalações e esculturas montam a mostra, que já recebe os visitantes com uma instalação de 72 sofás de ferro cobertos com tapetes.

Chama atenção uma escultura folhada a ouro e presa à parede de uma das primeiras salas. Aparentemente nobre, Idiosyngramm foi, na verdade, feita com papel machê: ao encobrir a estrutura “pobre” da sua obra, West queria ironicamente chamar atenção à legitimidade do que ele produzia: nos anos 1980 (e até hoje…), muitos acreditavam que materiais como o papel machê não poderia ganhar o status de arte. Ao lado de outros artistas conceituais, ele lutava contra a elitização da arte: para ele, não era o material que deveria determinar se uma peça é arte ou não, mas a criatividade, o repertório, o conhecimento e a intenção.

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QUE PADRÃO DE BELEZA?

Para brincar com essa ideia, West também produzia totens para sustentar sua esculturas ou ambientes inteiros, como salas de estar, que comportassem seus objetos de papel machê e ferro. É como se quisesse construir um universo em que esses objetos fossem aceitos socialmente. E somos mesmo convencidos: ele consegue transformar as nossas referências de padrões de beleza e qualidade.

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ARTE PARA SE RELACIONAR

Além de aproximar suas obras do espectador ao usar materiais do dia-a-dia, Franz West também produziu as chamadas “esculturas relacionais”. Muitas das suas obras podiam (e ainda podem) ser tocadas. Aparentemente simples, elas são instrumentos de proposição para que uma ou mais pessoas se relacionem com a peça, dando a ela o significado que quiser. Ou seja, West propunha que o público não fosse um mero espectador dos seus trabalhos, mas interagisse com eles e usasse sua própria criatividade para dar sentido às peças. No Brasil, artistas como Hélio Oiticica e Lygia Clark são referências mundiais quando o assunto é escultura relacional. Para todos eles, a arte tem o poder de transformar a relação entre as pessoas. A mais pura verdade!

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