Bienal de São Paulo: 4 passos para entender as escolhas do curador

Quando um curador é convidado para ser responsável pela Bienal de São Paulo, a segunda maior e mais importante do mundo, tente imaginar o tamanho da sua satisfação: isso reconhece uma vida inteira de estudos em história da arte, curadoria, crítica, expografia, entre outras disciplinas, além de um investimento infinito para ficar sempre atualizado do que acontece no volátil universo da arte contemporânea.

O atestado de mérito é também uma tarefa árdua de tentar fazer a melhor exposição da sua vida. Acontece que muitos dos curadores são tachados como esnobes quando atingem tal patamar: por vezes, sua figura se sobrepõe a dos artistas, que deveriam ser o chamariz principal de uma exposição deste porte. Por isso que Gabriel Pérez-Barreiro, curador da 33a Bienal de São Paulo, virou o modelo de cabeça para baixo. Entenda:

Exposição de Antonio Ballester Moreno, no térreo do Pavilhão da Bienal (Foto: Sofia Saleme)

ELE NÃO QUER COMPROVAR UMA TESE

É muito comum que um curador decida a tese que queira defender na sua exposição e, então, convide artistas que a comprovem por meio de suas obras. Na teoria, isso deveria funcionar de maneira inversa: por meio da escolha de obras e artistas, o curador constrói sua narrativa e, assim, dá mais importância para o ponto de vista dos artistas do que o seu próprio. É por isso que o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro preferiu não colocar tema na 33a Bienal. O título Afinidades Afetivas está muito mais ligado às diferentes percepções de experienciar a arte do que a um conteúdo delimitado. Em entrevista por telefone, ele disse: “No mundo em que vivemos, onde tudo é pautado no discurso, minha estratégia curatorial é não falar sobre ideologias ou conceitos, mas usar a arte para mostrar outras maneiras de se colocar no mundo”.

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DAR LUGAR PARA OLHARES DIFERENTES

Para propor ao público maneiras diferentes de perceber a arte, Gabriel entendeu que ele não poderia centralizar a curadoria. Mais ainda, decidiu dar aos próprios artistas a voz e o lugar que eles merecem. Dividiu, assim, o seu posto de curador com outros sete artistas: Alejandro Cesarco (Uruguai), Antonio Ballester Moreno (Espanha), Claudia Fontes (Argentina), Mamma Andersson (Suécia), Sofia Borges (Brasil), Waltercio Caldas (Brasil) e Wura-Natasha Ogunji (EUA/Nigéria). “Quando recebi o convite, logo fui fazer uma lista das pessoas que mais me tocavam no mundo das artes e a maioria delas eram artistas. Como eles organizam seu discurso? E por que eles pensam tão diferente dos curadores profissionais? Isso o que fui pesquisar”, explica.

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NÃO TER DIÁLOGO É UMA ESCOLHA CURATORIAL

Os critérios impostos por Gabriel aos artistas-curadores foram três: respeitar os limites de espaço destinado a cada um deles no Pavilhão da Bienal; colocar seu próprio trabalho na exposição; respeitar o orçamento que é o mesmo para todos. Cada um deles convidou, então, outros artistas para montar seu núcleo. Isso explica porque as exposições são tão diferente umas das outras. Ou seja, não procure diálogo entre elas – se preocupe em entender o que elas têm de mais diferente entre si. Isso continua sendo uma escolha curatorial e é o grande barato desta Bienal.

MENOS FALAÇÃO, MAIS EXPERIÊNCIA

No fim, o que Gabriel está fazendo é tratar artistas, curadores e visitantes como iguais: para eles todos têm capacidade para construir suas próprias afinidades afetivas com a arte. Os requisitos necessários para isso? Atenção. Nas atividades educativas, ele pede que o visitante se dedique à uma obra de arte por um tempo prolongado. Ou seja, menos discurso e falação e mais experiência pessoal e construção de repertório. Enquanto você faz a sua visita pela exposição, o BIGORNA prepara mais textos sobre seus curadores e artistas.

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