Uma alfaiataria dentro de um museu pode ser uma obra de arte?

A relação entre arte e moda já é íntima e antiga, mas não é sobre ela que Laura Lima está falando ao trazer uma alfaiataria inteira – com seus alfaiates, tecidos e máquinas de costura – para o octógono da Pinacoteca de São Paulo (a sala bem ali no meio do prédio é o encontro entre oito corredores, vãos e claraboias que formam o espaço mais fotografado da construção). Quem visita a exposição aberta em julho acompanha um processo real de produção: os trabalhadores sempre circulando, às vezes, com a mão na massa e outras sem nada muito excitante para se ver. Deslocar uma alfaiataria para dentro de um museu faz dela uma obra de arte?

Alfaiataria, de Laura Lima, entre julho e outubro na Pinacoteca (Foto: Julia Flamingo)

PROFISSÃO EM EXTINÇÃO

Para Alfaiataria, a artista radicada no Rio de Janeiro entrevistou vinte alfaiates e contratou seis. A profissão está em extinção e é para esse ofício que Laura quer chamar atenção do público. Mais do que costureiros, esses profissionais são verdadeiros criadores: eles fazem a modelagem “sob medida”, têm um grande conhecimento dos tecidos e sabem manuseá-los como ninguém. Acima de tudo, o alfaiate é um artista e não um simples reprodutor. Desta maneira, Laura convida pessoas como eu (que nunca havia entrado num espaço do tipo) a conhecer e enaltecer este processo de criação tão minucioso.

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VESTIR TELAS E NÃO MANEQUINS

Lúcia, Leon, Ortiz, Alexandre e Zezé são alguns dos personagens criados e esboçados pela Laura. Cada um deles têm peso, tamanho, material e traços específicos. Pode-se pensar que eles sejam manequins. Os “retratos”, como ela chama essas obras, são, na verdade, molduras e telas vestidas por tecidos. A partir dos desenhos de Laura, os alfaiates fazem suas linhas e bordados autorais e criam verdadeiras identidades para cada obra. A Zezé, por exemplo, é vegetariana (com vários tons de verde) e a Lúcia bem complicada: eles precisaram tirar sua roupa e conserta-la seis vezes para que ficasse perfeita.

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NÃO CONTE COM UMA EPIFANIA

A exposição também desmistifica o fazer de uma obra de arte. É um processo que pode levar bastante tempo. Muitas vezes a ideia não vem de uma epifania, mas depois de queimar neurônios em tentativas e erros. E não é incomum que um trabalho seja criada por várias cabeças e produzido por muitas mãos.

OSSOS DO OFÍCIO

Assim como Laura dá nomes às suas telas, ela não chama os alfaiates de performers. Ou seja, para Laura não há divisão muito clara do que é vida real e o que é a sua obra. Mesmo dentro de um museu, o espaço da alfaiataria é um local de trabalho e os profissionais ali presentes foram contratados para trabalhar dentro do seu próprio ofício. Não é porque está no museu que isso é uma obra de arte, mas por conta da intenção da artista, de toda estrutura que ela concebeu para que aquilo fosse possível, das estratégias de comunicação que ela deve ter com esses alfaiates para que eles entendam seu trabalho de arte e, por fim, o resultado: trinta telas que, até outubro, vão ganhando vestimentas sob medida e sendo içadas meio do museu.

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