Roupas, discos e utilitários feitos por artistas: os “colecionáveis” são obras de arte?

Sair por aí vestindo uma roupa desenhada por um artista pode ser bem chique. Melhor ainda é nadar numa boia inflável assinada ou comer num prato hiper estilizado que mais parece tela de exposição. A ideia de ter esses objetos em casa é bem tentadora. Alguns agrupam tais utilitários criados por artistas sob o termo “arte aplicada”. Às vezes, também funcionam os conceitos “arte para vestir” ou “colecionáveis”. Independente do nome: elas são mesmo obras de arte?

Cangas criadas por Alvaro Seixas para a Ocupação 55SP no Cartel 011 (Foto: Leandro SA)

A IDEIA É LEGÍTIMA

No texto que celebra os 90 anos de Andy Warhol, falo sobre a arte pop e a apropriação de objetos do consumo de massa na produção criativa. Nesse contexto, Warhol criou a famosíssima capa do disco do Velvet Underground, em 1967, com o desenho de uma banana, que virou objeto de desejo como se fosse uma obra exclusiva e de tiragem limitada. O mesmo aconteceu com Jean-Michel Basquiat, que produziu a capa de Beat Bop, de Rammellze e K-Rob, em 1983. Na época, foi prensada uma tiragem de 500 cópias e hoje virou um colecionável que pode chegar a valer US$ 8.000. Casos emblemáticos para pensar: o fato das artes dos discos terem sido produzidos em série tornam as criações dos seus autores menos legítimas?

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POR NOVOS MEIOS DE EXPRESSÃO

É justamente nessa linha da arte colecionável que atuam galerias como a paulistana 55SP (@_55sp). Com sede na Santa Cecília, ela ocupa a loja Cartel 011 (@cartel011), em Pinheiros, até o final de agosto, com seus objetos de artista. Estão por lá, por exemplo, roupas produzidas pelo artista Iran do Espírito Santo (@doespiritosantoroupas). O pensamento plástico do paulista – a transparência, geometria e degradê das suas esculturas – está óbvio nas vestimentas. Paulo Nimer Pjota (@paulopjota), artista de destaque da descolada Galeria Mendes Wood DM, produziu uma camiseta especialmente para a 55SP. O Cão, grupo de experimentação em música, arte sonora e e performance e formado pelos artistas visuais Bruno Palazzo, Dora Longo Bahia, Mauricio Ianês e Ricardo Carioba, também integram a ocupação do Cartel. Desta vez com um disco, publicado pela galeria de colecionáveis. Quem disse que artista deve apenas produzir esculturas, pinturas ou videoarte? Roupas e discos também são um suporte para sua expressão!

QUANTO MAIOR TIRAGEM, MAIS ACESSÍVEL

A Third Drawer Down é um estúdio de design australiano que vende as peças mais loucas feitas por artistas. Elas foram importadas pela Julia Morelli, diretora da 55SP: na prateleira do Cartel, por exemplo, estão os pratos criados pelos italianos Maurizio Cattelan e Pierpaolo Ferrari, que mais parecem formas físicas do seu site Toilet Paper (@toiletpapermagazineofficial). Em conjunto com as Guerrila Girls (@guerrilagirls), eles também comercializam as famosas toalhas de linho, em que as artistas misteriosas criticam a situação da mulher no universo da arte, na obra As vantagens de ser uma artista mulher. Obras originais de artistas como esses podem chegar a custar centenas de milhares de dólares e, por isso, nunca chegarem até você. Produzi-las em uma tiragem maior significa torna-la mais acessível – no bolso e no número de lugares onde a encontrar.

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PROCESSO DE PRODUCÃO

Um colecionável pode ter sido criado e produzido inteiramente pelo artista ou com seu consentimento – caso de todas as peças da 55SP. Porém, não é incomum que lojas gigantescas como a Uniqlo produzam camisetas de artistas assinadas como aquelas feitas em parceria com a Fundação Basquiat, lenços de Ai Weiwei (@aiww) ou blusas da Kiki Smith. O que diferencia é, principalmente, o processo de produção. Quando feitos em larga escala, esses produtos provavelmente nem chegam até o artista, mas são feitas numa fábrica e com tiragem ilimitada. No final, o que importa mesmo é o valor que aquele objeto tem para você e nem tanto o seu valor de mercado: se ele é mais ou menos especial, é o dono destas peças que pode dizer.

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