90 anos de Andy Warhol: quantidade é qualidade

Andy Warhol já disse: “Quantidade é qualidade”. Se levarmos isso para curtidas em posts nas redes sociais, a máxima parece ser mesmo real. O artista americano completaria 90 anos de vida nesta segunda, 6 de agosto, e como estamos carecas de saber, usava a seriação e produção em massa nos próprios trabalhos para criticar o consumo desenfreado, uniforme e efêmero na sociedade americana dos anos 60. Mas vale celebrar o aniversário dele lembrando que sua crítica é até hoje um calo no pé do mercado de arte: será que o que ele pregou foi absorvido pelo meio?

PREPARANDO O TERRENO

Pop art não é um estilo, mas uma palavra que reagrupa fenômenos ligados ao espírito de uma época. Ela nasceu por conta de uma euforia proveniente da estabilização política e econômica do pós Segunda Guerra e isso fazia com que se enaltecesse a pátria, uma revalorização daquilo o que chamado de “povo” ou “popular”. A publicidade começou a estudar a cultura de massa e sabia se aproveitar desta onda de positividade para criar produtos e, em cima deles, o desejo de tê-los. Objetos produzidos em série, iguais, para todos. Robert Rauschenberg e Jasper Johns foram os primeiros artistas a produzir suas obras de acordo com esta sociedade midiatizada, e não mais falar sobre sentimentos como faziam os chamados expressionistas abstratos, como de Konnig e Rothko.

ARTISTA É GÊNIO?

Esses caras abriram os caminhos para o Andy Warhol, que apesar de ser reconhecido como designer no mundo da publicidade, ansiava entrar para o mundo das artes, tido como um ambiente mais elitista e com “arte de qualidade” – essa divisão injusta persiste até hoje no Brasil. Ele sabia que, para chamar atenção, precisava ser tão atraente como a publicidade. Além de se apropriar da estética, se utilizou também da técnica de convencer pela insistência. A ideia era mesmo genial, mas ele queria mostrar que o artista não é uma pessoa melhor, um gênio ou intocável. Artista, para ele, podia ser qualquer um. Outro conceito que ainda não é lá muito bem aceito pelo mercado.

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TEM ARTE MELHOR OU PIOR?

Um belo dia, quando ele voltou para casa para almoçar e viu a lata de sopa Campbell’s, ele sacou que aquele poderia ser seu grande símbolo. Fez 32 telas que ele estampava a lata de sopa e os apresentou na Ferus Gallery, em Los Angeles. Foi o galerista Irving Blum que quis apresentar os quadros apoiados em prateleiras, como num supermercado. Também foi ele que sugeriu que, no lugar de vender cada tela por 100 dólares como queria Warhol, fazer daquilo um conjunto. E então tudo fez sentido: a seriação falaria sobre a produção em massa, a uniformidade, a monotonia. Logo ficou claro que, para Warhol, a ideia de que a obra precisa ser original, única e autêntica para ser chamada de arte não servia: tudo era arte e não existia arte melhor ou pior. Até hoje, existe um grande esforço de alguns curadores e artistas para que essa divisão entre o que é de maior ou menor qualidade não aconteça. Um bom exemplo é o o termo “arte naïf”,  cujo nome vem do inglês naive, ou seja, ingênuo – eles propõem a denominação (bem menos depreciativa) arte popular brasileira.

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OBRA DE ARTE TEM QUE SER ÚNICA?

Usando a serigrafia, técnica em que uma imagem é transferida para outra tela passando uma emulsão e, em seguida, a tinta, Warhol poderia produzir a mesma imagem infinitamente. Note: apesar de parecem exatamente iguais, se você chega perto, percebe que cada Elvis Presley ou Marilyn Monroe de Warhol é ligeiramente diferente do outro. Isso acontece porque o trabalho não foi feito por uma máquina, mas pelas mãos de um artista. Hoje, aquilo o que chamamos de múltiplo ou edições de arte tem esses mesmo princípios: uma obra criada e assinada por um artista, feita em uma tiragem limitada e, apesar de existir mais do que apenas uma semelhantes a ela, a peça é considerada uma obra de qualidade. A produção e comercialização deste tipo de obra já ganhou espaço próprio no mercado brasileiro. Pelo menos neste ponto, o choque causado por Warhol já foi bem assimilado!

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