O que é modelo vivo?

Curioso pensar que um exercício de desenho surgido no Renascimento ainda é comum nos cursos práticos de arte. Para quem olha de fora, as sessões de desenho em grupo a partir de um corpo nu podem parecer um treinamento simples. Mas, acredite – aulas de modelo vivo serão sempre um desafio até para os mais habilidosos:

Encontro de desenho no ateliê de Sofia Saleme, em dezembro de 2017 (Foto: Sofia Saleme)

IMPREVISIBILIDADE

Uma sessão de modelo vivo é espontânea e depende do humor e desenvoltura do modelo, que pode ficar vários minutos ou até algumas horas numa mesma posição, ou prefira aproveitar o momento para expressar suas outras habilidades como canto, dança e teatro. Desenhar um corpo parado é uma coisa; agora imagine retratar uma pessoa enquanto ela canta ópera a plenos pulmões. Lidar com uma pessoa e não com uma escultura para a inspiração de seus desenhos faz com que os artistas treinem não só seu braço e seu traço, mas principalmente o seu olhar sobre a diversidade de corpos.

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SESSÃO DE DESAPEGO

Estas sessões raramente acontecem apenas com um artista. A ideia de fazer essas oficinas em grupo é poder ver outros desenhos acontecendo e presenciar como vários artistas lidam com a imprevisibilidade. Dudi Maia Rosa (@dudimaiarosa), artista e professor do Museu de Arte Moderna (MAM), prega ainda o desenho cego – aquele em que seu autor não olha para o papel – ou o desenho com a mão contrária que você escreve. No final da aula, ele pede que seus alunos apresentem todas as suas produções, mesmo aquelas que o artista julgue meia-boca. A ideia é desapegar o olhar e o gosto pré-definido.

NÃO É AULA DE ANATOMIA!

Sofia Saleme (@sofiasaleme) é artista, oferece oficinas de modelo vivo semanais no seu ateliê e é minha irmã (não teria melhor fonte do que ela para esta matéria). Ela conta: “Em muitos cursos de desenho, aprendemos que, ao desenhar uma pessoa, devemos fazer um retrato quase clássico. Quando participei da aula do Dudi Maia Rosa percebi que eu estava na verdade fazendo um desenho do que eu estava sentindo e não da anatomia humana”. Cada semana, ela convida uma nova pessoa para posar para cerca de seis participantes em seu ateliê na Vila Madalena. A sessão de desenhos dura cerca de duas horas e cada artista leva o material que quiser para sua produção. Ao final, não poderia faltar aquela meia hora de discussão (interessou? Entre em contato pelo Instagram!): “É um exercício de olhar minuciosamente para corpos diferentes, para enxerga-lo de fato”.

ENCARA O DESAFIO?

Além deste ateliê de artista e do MAM, também vale acompanhar a Oficina Colaborativo Modelo Vivo, que acontece no Centro Cultural São Paulo. Ali a tarefa é dupla: todos os alunos participantes também se revezam como modelo (e é gratuito!). No Rio de Janeiro, vale acompanhar as oficinas no Parque Lage. O mais legal de tudo: este exercício não é só para artistas, mas para qualquer pessoa que desejar testar seus rabiscos e, mais ainda, seu olhar.

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