Curadoria na galeria e no museu: qual a diferença?

Quando a obra ainda está no ateliê do artista, o controle é total. É ainda um recém-nascido no colo da mãe. Mas, quando o trabalho sai desse contexto e vai para uma exposição tudo muda de figura. Numa mostra coletiva, o trabalho de repente é apresentado lado a lado com outros nada semelhantes, e a obra-prima agora adolescente tem que encarar esse mundão de interpretações. Qual o papel do curador nesta hora de montar uma exposição num novo contexto de galeria ou de museu?

Obras Symbiosis, de Roberta Carvalho, e Pó e paisagem, de Brígida Baltar, na exposição da galeria Simone Cadinelli  (Foto: Julia Flamingo)

FOCO NO CONTEÚDO!

Um museu tem uma importante função social de apresentar diálogos com a cidade e com as questões atuais de uma sociedade. As instituições devem formar público e estarem sempre atentas em como aumentar seu número de visitantes. Para isso, os curadores têm papel crucial. Já as galerias são espaços voltados para o mercado e, frequentemente, apresentam o seu acervo sem nenhum tipo de curadoria. Quando o diretor de uma galeria decide convidar um curador para uma exposição específica, a ideia não é necessariamente ampliar o seu número de visitantes, mas mostrar sua preocupação com o conteúdo apresentado: este profissional pode dar um novo sentido ao acervo, trazer para a galeria trabalhos de artistas que não são representados por ela e mostrar obras que não necessariamente estão à venda.

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O DESAFIO CONTINUA

Curador do MAR (Museu de Arte do Rio), Marcelo Campos está habituado a montar exposições na instituição do Pier Mauá. No último mês, ele também foi convidado para criar o projeto inaugural da galeria carioca Simone Cadinelli. No primeiro momento, o que passa na cabeça é a diferença de tamanho entre esses espaços, que fazem diminuir o número de trabalhos apresentados. Para o Marcelo, porém, o desafio continua o mesmo: criar sentido. O curador escolhe um recorte de obras, uma temática e cria o título para que obras de diferentes artistas, materiais completamente diversos e conteúdos aleatórios possam ser apresentadas juntas em um novo contexto. Isso não significa criar uma linha do tempo ou dividir as peças em grupos, mas montar uma narrativa. “Você vai irmanar dois trabalhos a partir de qual relação?”, coloca Marcelo. Ele conta: “Temos um canal muito aberto com os artistas. E também trabalhamos muito próximos da academia. Quando uma galeria nos convida, ela quer que a gente traga ambos universos para mais perto”.

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CURADORIA É UMA ARTE

Para a mostra da Simone Cadinelli, Marcelo selecionou trabalhos que falam sobre a paisagem, um marco do Rio de Janeiro, versus o cenário verdadeiro das realidades sociais: “O que mais me interessa é a relação da arte com a sociedade. Preciso criar um sentido social para minhas exposições onde quer que elas estejam”, diz. O título Luzes indiscretas entre colinas cônicas tem trabalhos de treze artistas. Se Brígida Baltar coleta pó de tijolo para criar a instalação Pó e paisagem com desenhos das serras de Petrópolis e Friburgo, Yoko Nishio (@yoko.nishio) prefere pintar cenários do Rio através das lentes de câmeras de segurança (veja na foto acima). Já no trabalho de Robnei Bonifácio (@orobsley), a paisagem é construída pelas pessoas. Diário de viagem é formada por cadernos que guardam desenhos e relatos de viajantes que esperam nos aeroportos e rodoviárias da cidade. Você teria pensado nesses trabalhos para falar sobre a paisagem do Rio? Curadoria é mesmo uma arte à parte!

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