Ernesto Neto na estação de Zurique: a sacada de transformar uma escultura num espaço

Entre o vai e vem de passageiros que circulam pelas plataformas de trem na estação principal de Zurique, está uma escultura colorida de 20 metros de altura feita de crochê. Ela torna impossível que os passantes não parem para reparar na sua própria correria diante de um espaço que emana tranquilidade. As obras de Ernesto Neto (@ernestonetoart) não são totens para serem admirados pelo espectador passivo, mas o próprio espaço pelo qual o visitante se move. E o que ele pretende com isso?

GaiaMotherTree, na principal estação de trem de Zurich, em cartaz até 29 de julho de 2018 (Foto: Matthias Willi. Cortesia Fondation Beyeler)

PARE POR ALGUNS MINUTOS

Chamadas de Naves, esse tipo de escultura-arquitetura do carioca Ernesto Neto já levou os nórdicos mais enrijecidos a relaxar. São tecidos esticados e presos à arquitetura de um espaço que criam um ambiente ao mesmo tempo confortável e transparente. Desses tecidos pendem gotas preenchidas por materiais como especiarias ou bolas de gude. De partida, a forma do trabalho e a manipulação das tramas já mostra que Neto está testando o peso e a leveza dos materiais. Ele está desafiando a gravidade – e convida o público o fazer isso também, ao sentir o peso e o movimento do seu próprio corpo.

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TÁ, E DEPOIS DE ENTRAR EU FAÇO O QUE?

Neto tem um quê de místico e ritualístico que herdou dos índios brasileiros misturado com a ginga do carioca que vai à praia todos os dias. Mas não precisa esperar nenhuma grande revelação metafísica ao entrar numa de suas obras, a ideia é você estar lá. No trabalho de Neto tudo está caindo, assim como o mundo está sempre caindo: ele acredita que a vida só funciona porque estamos na procura constante de condições políticas, sociais e econômicas mais estáveis. E o que ele faz é propor um novo tipo de crescimento e desenvolvimento pautado em novas maneiras de se relacionar. Aí você tira o sapato, sente o chulé do desconhecido, força a intimidade, mas também constrói uma relação de mais proximidade e atenção com quem está do seu lado. Percebe?

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POSSO FICAR MAIS?

Chamada de GaiaMotherTree, a escultura de Zurique remete ao formato de uma árvore (consegue achar galhos, troncos e raízes na foto acima?), que representa o útero da Mãe Terra. Comissionada (ou seja, financiada) pela Fondation Beyeler, a obra oferece uma programação de conversas com artistas e antropólogos, saraus de músicos do mundo todo, além de sessões semanais de meditação. Mais do que um objeto, é um lugar de encontro: a saída que Ernesto Neto vê para nós. Se não buscarmos nossas raízes, estreitarmos nossa relação com a natureza e apostarmos numa vida que não está pautada no material, onde esse mundo vai parar? Que curiosidade para saber o que os suíços acham disso tudo!

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