Arte e espiritualidade: por que Hilma af Klint ficou tão famosa agora?

Demorou bastante para que a sueca Hilma af Klint ganhasse a atenção que merece. No Brasil, foram necessários pelo menos 70 anos, se começarmos a contar a partir de sua morte até sua individual, entre março e junho de 2018, na Pinacoteca. Parte considerável deste esquecimento é resultado de escolha da própria artista: Hilma produzia seus trabalhos durante sessões de psicografia e, no começo do século XX, essa revelação poderia a condenar como louca, então ela preferia passar despercebida (leia aqui minha matéria completa sobre a exposição para o site da SP-Arte). Mas o reconhecimento tardio da pintora nascida em 1862 não é devido apenas à descoberta da sua obra somente nos anos 1960. A importância dada à Hilma hoje é fruto de um olhar do meio artístico que encaram sua vida e obra ótimos subsídios para lidar com questões latentes atuais: o lugar da mulher na sociedade e a produção feminina na arte, e as novas relações com a espiritualidade no intuito de criar “saídas” para os tempos de crise.

 

ESPIRITUALIDADE ESTÁ BOMBANDO

O assunto arte e espiritualidade vem sendo cada vez mais presente em grandes exposições do mundo. A última Documenta de Kassel, em 2017 – mostra que acontece a cada cinco anos na cidade alemã – foi inteira baseada no pessimismo perante as guerras, as crises econômicas, a retomada da direita extrema, o terrorismo, entre outras catástrofes que assolam o mundo hoje. Assim como a última Bienal de São Paulo, em 2016, a Documenta reuniu muitos trabalhos de artistas que trouxeram novas cosmovisões, ou seja, novas maneiras de ver o mundo. São jeitos de interpretar a vida para além do racional, dando atenção aos sentidos e à intuição.

Desta maneira, foram emblemáticos os trabalhos de nomes como Bené Fonteles, artista e xamã paraense que criou uma oca no Pavilhão da Bienal, ou Ernesto Neto que, em plena Bienal de Veneza do ano passado, construiu uma estrutura semelhante àquela usada pelos índios do Acre para propor sessões de discussão, meditação e yoga aos visitantes (em 2014, o carioca ofereceu ayahuasca ao público da sua exposição no Instituto Tomie Ohtake – e é claro que fez muita fila).

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QUEM MAIS?

Outros artistas não tratam o tema de maneira tão óbvia, mas usam sua arte como uma busca espiritual ou produzem obras mais contemplativas. É o caso da sérvia Marina Abramovic, que passou por diferentes experiências ritualísticas no Brasil com o intuito de aprofundar sua pesquisa sobre performance. O resultado é o Método Abramovic, conjunto de exercícios em que o público interage com pedras energéticas (leia aqui a matéria que escrevi para a Veja São Paulo sobre o filme Espaço Além, com entrevista da artista).

Já o americano James Turrell usa a luz para criar trabalhos e ambientes quase místicos. Suas obras site-specific são tão deslumbrantes que fazem revelações sobre a percepção e a materialidade da luz. Até o trabalho do alemão Anselm Kiefer, conhecido por seus quadros trágicos que remetem à destruição nazista, é perpassada pela uma atmosfera sinistra ligada aos fantasmas que foram testemunhas deste capítulo da história. Muitas vezes ele remete à espiritualidade da Cabala ou às crenças do Egito antigo para discutir sobre o começo e o fim da vida e do mundo. A arte nos faz entender a existência de outra maneira: Hilma af Klint e esses outros artistas espiritualizados nos ajudam a suportar a realidade por meio das suas produções.

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