Bienal de Arquitetura: qual a proposta do Brasil para seu pavilhão em Veneza?

Se a Bienal de Veneza é um dos eventos mais importantes para o universo da arte, a Bienal de Arquitetura da mesma cidade não poderia ser diferente. Esses eventos se revezam ano a ano, ocupando sempre os mesmos espaços intitulados Giardini e Arsenale. Espécie de parques, eles têm grandes galerias para as mostras principais além de mais de cinquenta pavilhões de representações nacionais, entre eles o Brasil, que tem um pavilhão fixo e representação garantida em todas as bienais. Mas o que exatamente significa uma grande exposição de arquitetura? E qual é a proposta do Brasil para seu pavilhão?

Site-specific Solar Flux Recordings, de Rosa Barba, no Palácio de Cristal, em 2017, em Madri (Foto: Julia Flamingo)

OBRA COM LUGAR MARCADO

Arquitetura e arte vivem se cruzando o tempo todo: grandes museus contemporâneos são assinados por arquitetos renomados para que os visitantes admirem não só as obras, mas também o espaço que as envolve. O museu vira algo como um templo de criação. Relação ainda mais próxima é de artistas contemporâneos que têm o espaço como protagonista de seus trabalhos. Eles criam obras específicas para determinado lugar, de acordo com o contexto ambiental, politico, social. Para esse tipo de obra se dá o nome de site-specific: são as condições daquele lugar que permitem que a obra exista.

Por conta da imponência e também da sua singularidade, é comum que essas obras causem um sentimento de exclusividade quando vistas pessoalmente. É o caso do site-specific da italiana Rosa Barba, no Palácio de Cristal, de Madri (veja na foto acima): ela dispôs placas de vidro coloridas no espaço para refletirem a luz do sol e provocar diferentes filtros e desenhos. A obra depende totalmente do prédio onde está inserida e é diretamente influenciada pelo clima, tempo e luz.

ARTE E ARQUITETURA

A Bienal de Arquitetura nasceu em 1980, como um braço da bienal de arte e com o intuito de escancarar esta próxima relação entre arte e arquitetura. A cada dois anos, questões das mais latentes relacionadas a espaço, movimento, ocupação, urbanização, entre outros temas, são discutidas neste evento por meio de site-specifics e obras de grandes proporções mas, também, objetos de arte, projetos, desenhos, maquetes e pinturas. Neste ano, o tema escolhido pelas curadoras irlandesas Yvonne Farrell e Shelley McNamara para a 16ª edição do evento é Freespace, ou a arquitetura que dá suporte e nutre o contato entre pessoas e lugares.

Entenda: “O que é uma bienal?

PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA

Para isso, a curadoria do pavilhão brasileiro, composta por Gabriel Kozlowski, Laura González Fierro, Marcelo Maia Rosa e Sol Camacho, construiu a exposição intitulada Muros de ar. O título é bem abstrato, assim como a matéria de trabalho: levantar, organizar e mapear as barreiras invisíveis do território brasileiro (consegue pensar em uma? Ou em várias?). A difícil tarefa contou com pesquisas e projetos de arquitetos, mas também opiniões de cineastas, ativistas, artistas, advogados, geógrafos e outros profissionais que criaram cartografias para algumas questões latentes no Brasil (e no mundo): a recepção de imigrantes, a relação entre os ecossistemas humano e natural, os programas habitacionais e o direito à cidade, entre outros.

É também em eventos culturais como esse, voltado para a arte e arquitetura, e não apenas em episódios econômicos e políticos, que o Brasil pode se mostrar atento às suas dificuldades e apresentar possíveis caminhos – mesmo que eles sejam projetos e mapas. A importância da participação brasileira na Bienal de Veneza é mostrar um pensamento artístico crítico fruto do nosso tempo e realidade – deixando claro que existe um desejo de mudança.

Assista: “Falando sobre ocupações