Arte africana está na moda?

Parece uma grande coincidência: três dos maiores museus de São Paulo – Instituto Moreira Salles, Centro Cultural Banco do Brasil e Masp – além do mais óbvio Museu Afro, estão com exposições de arte africana em cartaz. E quando falamos de arte africana, não pense nas tradicionais máscaras cerimoniais e nem em fotos feitas por estrangeiros do povo africano que mais parecem estudos antropológicos. Pense em videoarte, música, fotografia e instalações feitas por artistas contemporâneos. E por que todas esses museus tiveram exatamente a mesma ideia no mesmo momento?

Check Point Secondi Loco, de Ibrahim Mahama, na Documenta de Kassel, na Alemanha, em 2017

Primeiro de tudo: é impossível separar discussões políticas e sociais da arte contemporânea. Crimes como os assassinatos da vereadora Marielle Franco e a artista Matheusa (que fez uma performance na SP-Arte/2018), e polêmicas como apropriação cultural, por exemplo, integram discussões sobre a minoria negra que são abraçadas por instituições cujo dever é revisitar fatos históricos, apresentar artistas e obras e propor debates que ofereçam ferramentas para que o público enriqueça seu repertório e embase sua opinião. Nesse sentido, a arte serve para sensibilizar e construir pensamentos menos rígidos.

Saiba mais: “O que é arte contemporânea?

OLHAR PARA O OUTRO

Na última Documenta de Kassel, em 2017 – a mais importante exposição do mundo, que acontece a cada cinco anos na cidade alemã – um dos mais imponentes trabalhos era assinado pelo ganês Ibrahim Mahama. Check Point Secondi Loco foi feito na fachada de dois prédios: ele envelopou as construções com sacos de juta, que foram feitos na Ásia para carregar alimentos para o mundo todo (veja a foto acima). A obra fala sobre o comércio internacional e sobre os trabalhadores às vezes esquecidos (os sacos tinham assinatura de quem os costruiu, carregou e transportou). Para além disso, era também um monumento às minorias – e foi vista por milhões de pessoas que viajaram até Kassel ou que leram sobre a mais importante mostra do universo. A curadoria do polonês Adam Szymczyk marcou mais uma vez a necessidade da arte olhar para o “outro”.

Sair do centro e olhar para a periferia vem se tornando um engajamento de instituições culturais do mundo inteiro, para questionar a supremacia da arte europeia e americana, branca e masculina. O Brooklyn Museum, de Nova York, por exemplo, está em cartaz com a mostra Mulheres Radicais, que mostra a produção feminina na América Latina, entre os anos 1960 e 1985 (e que será inaugurada na Pinacoteca em agosto!).

EM CARTAZ

Desta maneira, a arte africana passou, então, a ganhar mais espaço para além do seu continente. Por aqui, no CCBB, o mesmo Ibrahim Mahama integra a mostra Ex Africa com outra grande instalação, uma montanha de caixas de frutas com objetos pertencentes a trabalhadores que as manusearam. Menos pretensiosa, a exposição individual do maliano Seydou Keïta, no IMS, reúne mais de 130 fotografias realizadas pelo artista em seu estúdio, entre as décadas de 1940 e 1960, com habitantes da capital Bamako. Ele fazia uma direção de arte incrível trazendo para o mesmo clique os conflitos vividos às vésperas da independência do país, permeados pelo desejo de modernidade, porém a autoafirmação do povo.

A mostra Jamaica, Jamaica!, no Sesc 24 de Maio, mostra a cultura musical do país caribenho fortemente influenciada pelo seu passado africano. No Masp, está em cartaz a individual de Emanoel Araújo, artista e curador do Museu Afro que, desde 2004, faz um trabalho de excelência quando o assunto é produção artística afro-brasileira. Sim, arte africana está na moda –  e ainda bem! Relativizar a história da arte “oficial” para incluir outra produções periféricas virou, finalmente, uma missão de muitos museus.

Assista ao vídeo: “Falando sobre ocupações