“O escândalo de Philippe Dussaert”: o que está por trás da peça de Marcos Caruso

Pode o nada ser uma obra de arte? Imagine essa cena: um artista cria uma obra numa galeria que não é absolutamente nada. Ele dá o titulo para aquela obra, que ganha plaquinha de parede e exposição. Esta é a proposta que costura a narrativa da peça O escândalo de Philippe Dussaert, protagonizada por Marcos Caruso e em cartaz até julho no Teatro FAAP. Mas a que ponto exatamente ele quer chegar com esse texto sobre arte contemporânea?

Merda de artista, de Piero Manzoni, de 1961 (Fondazione Piero Manzoni, Milano/ Fotografia Bruno Bani, Milano)

Em formato de palestra, a peça é um monólogo escrito pelo francês Jacques Mougenot, que criou um texto bem didático para falar sobre o tal escândalo criado a partir da obra do nada: a abertura da exposição numa galeria cheia de gente, porém sem nenhuma obra visível; comentários dos convidados sobre o nada; textos de críticos que escreveram sobre nada; e, por fim, a venda da obra do nada por milhões num leilão de arte. A situação irônica e esquisita, que arranca risos da plateia ao longo de toda a peça, é totalmente plausível.

Entenda: Se Duchamp disse que conceito é o que importa para uma obra – sendo esta a característica mais emblemática para definir a arte contemporânea – a obra do nada de Philippe Dussaert pode ser uma obra se ela tiver um conceito bem amarrado por trás de si. Caruso, interpretando o palestrante, apresenta diversas situações que mostram que o trabalho do nada tem, sim, um bom discurso: é só através da arte que se pode atingir um conceito tão abstrato como o nada. Muito diferente do vazio, que está ligado a um espaço (um bolso vazio, um ambiente vazio), o nada é uma ideia, uma abstração.

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MERDA DE ARTISTA

Isso fica ainda mais claro com um exemplo emblemático (ele também foi mencionado na peça, mas sem precisão): em maio de 1961, Piero Manzoni criou a obra Merda de artista, que consistia em noventa latas numeradas com a descrição de que ali dentro estavam 30 gramas de merda bem conservada (veja a foto acima). Se as latas estavam mesmo repletas de merda ou não é um enigma até hoje: o que importa é o que o artista propôs com essa obra, que causou o maior rebuliço no mercado de arte. Ele fez uma brincadeira questionando a crença de que obra de arte é tida como algo único, autêntico, que diferencia um artista de um não-artista e que vira facilmente um produto comercial, atingindo milhares de dólares num leilão. Se você quiser sanar sua curiosidade e abrir a lata, você irá jogar fora aquele dinheirão gasto para a comprar. Para esse tipo de pensamento, foi dado o complicado nome “arte conceitual”: o mito, a ideia e o discurso são as características mais valiosas de um trabalho.

A ARTE DE FAZER ACREDITAR

A ideia do conceito por trás da obra de arte aparece na própria peça o tempo inteiro. Afinal, o teatro também é a arte de fazer acreditar! Note: toda esta discussão é abordada por um personagem que é um palestrante. Quantos palestrantes por aí não poderiam falar sobre arte contemporânea com muita propriedade e para um público tão abrangente? O espetáculo expressa, também (assim como a reação animada da plateia) a necessidade que as pessoas têm de se aproximar do universo da arte contemporânea de maneira mais palatável e acessível. Coisa que o BIGORNA prega do começo ao fim!

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