O que faz de um artista um artista?

É provável que esta seja a pergunta mais difícil que vai aparecer no BIGORNA. As respostas são tantas, que torna quase impossível resumir as características de um artista numa lista de qualificações. Cada um deles estabelece o significado que se aproxime melhor com sua vocação. Por isso, o caminho aqui é oferecer algumas vias para que você construa, também, a sua própria definição:

Performance Trama, de Alexandre Heberte, durante a SP-Arte/2017 (Foto: Julia Flamingo)

“O ARTISTA É UM GRANDE QUESTIONADOR”

O fazer artístico está ligado a inquietações. Sejam elas sentimentais ou engajadas, esses questionamentos são um grande combustível para produzir arte. Por vezes, o artista procura respostas no seu próprio trabalho, outras vezes, eles só está atrás de mais perguntas. Nesse sentido, ele é como um filósofo que está sempre cavucando a sua própria condição e do mundo ao seu redor.

Joseph Beuys disse que “Todo homem é um artista”. Isso é porque, para ele, não é determinante que alguém produza um objeto de arte para mostrar que também tem questionamentos. Pode acontecer o tempo todo, durante os momentos mais banais da vida. Fato é que o artista tem, acima de tudo, sensibilidade para perceber o que acontece a sua volta e não deixa suas inquietações passarem despercebidas.

“O ARTISTA PENSA, UM ARTESÃO REPRODUZ”

Durante muito tempo se separou um artista – aquele que questiona – do artesão – aquele que reproduz. Isso fazia sentido para uma época em que o artista era tido como um intelectual intocável, como no Renascimento. Hoje, porém, existe um movimento muito importante de não-hierarquização da arte: tudo o que um artista diz que é arte, é arte e pronto. Formalmente, nenhuma é melhor ou pior do que a outra.

Alguns acreditam que o artista “de verdade” é aquele que trabalha sozinho e põe a mão na massa. Eles existem, claro. Mas, na arte contemporânea, muitos artistas concebem o trabalho, mas terceirizam sua produção. Outros ainda têm tantos assistentes que mal tocam na sua obra-prima. Todos eles podem ser chamados de artistas: na arte contemporânea, o que importante é a ideia e não o resultado.

“O ARTISTA É POBRE”

Mais do que uma profissão, ser artista é uma identidade. Mas isso não quer dizer que seja aceitável uma pessoa não conseguir se sustentar com sua arte. A triste verdade, porém, é que a grande maioria dos artistas não vive da venda de seus trabalhos. Isso acontece principalmente por conta do mercado: ele é inconstante e impossível de prever. O outro lado da mesma moeda é que o artista precisa investir financeiramente para produzir trabalhos, se inscrever em editais, salões e residências, mas é raro ele efetivamente conseguir receber esse dinheiro de volta ainda no começo de sua carreira. Ser artista e ganhar dinheiro com isso requer insistência.

O estigma do artista pobre, desleixado e ocioso está deixando de existir. Hoje, seu status vem mudando para uma pessoa trabalhadora e estudiosa, ligada nos eventos atuais e no mercado. Por isso, a famosa pergunta “O que você faz além de ser artista?” já não cai bem nas rodas de conversa. E com toda razão!

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“O ARTISTA VIRA ARTISTA DEPOIS DE FORMADO”

O Brasil tem cursos formais de belas artes desde 1826, com a fundação da Escola Imperial das Belas Artes, no Rio de Janeiro. De lá para cá, a importância dada aos estudos formais de arte veio aumentando, assim como o número de cursos oferecidos pelos quatro cantos do país. Fazer uma faculdade ou pós-graduação em artes visuais é muito importante para um artista. Mas, assim como em muitas profissões, não é imprescindível para sua carreira. Hoje, uma faculdade de artes visuais propõe que seus estudantes mergulhem não só em aulas práticas e técnicas, como também em aulas teóricas e, acima de tudo, esteja num diálogo constante com críticos, curadores e acadêmicos. Eles irão ajudar para que o estudante desenvolva e aprofunde a sua pesquisa.

“O ARTISTA É EGOCÊNTRICO”

Ao fazer arte, o artista está sempre olhando para si mesmo. Neste sentido, o pré-julgamento sobre ele ser egocêntrico é cabível. Também não é incomum que ele não queira explicar sua obra e prefira se retirar de eventos bochichados. Muitos outros são generosos, circulam pelo cenário da arte e acham importantíssimo debater sua própria obra. Tem de tudo. A Marina Abramovic (@abramovicinstitute), por exemplo, já disse várias vezes que ser artista significa sacrificar a vida pessoal para conseguir prestar atenção em outros aspectos de si mesmo e do mundo.

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