Você sabe onde eu posso conhecer um artista?

A pergunta do título é também o lema do Festival dos Espaços dos Artistas (FEA), que coloca qualquer pessoa cara-a-cara com artistas. A programação acontece na semana mais badalada do ano em Lisboa quando o assunto é arte: entre quarta (15 de maio) e domingo (19), acontece a quarta edição da Arco, feira de arte que pauta a agenda da capital portuguesa e atrai várias iniciativas paralelas pela cidade – e a FEA é, sem dúvidas, a mais ousada delas:

Festival dos Espaços dos Artistas de Lisboa (Foto: Tessy Morelli)
Bruce Nauman em "Failing to Levitate in the Studio", de 1966

COMENTÁRIOS MIRABOLANTES

Acontece bastante: encontrar um artista mas ficar com vergonha para perguntar ou comentar a sua obra. Ou, num primeiro papo com alguém, descobrir que o interlocutor é um artista e até ficar interessado, mas achar que não sabe a abordagem certa para continuar um papo. É comum os colocar num grupo de pessoas geniais, geniosas e especiais, mas isso também os afasta de nós meros mortais. Abrir ao público espaços geridos por artistas mostra que eles são gente como você e eu e não estão esperando que qualquer pessoa traga comentários mirabolantes e referências teóricas das mais sofisticadas. Na maior parte das vezes, eles só querem mesmo tomar uma cerveja e conversar de forma simples e sincera. O feedback de um espectador também pode ser bem valioso para a produção de um artista.

LISBOA EFERVESCENTE

O FEA promove trinta exposições de 150 artistas em 28 ateliês, residências e salas expositivas de Lisboa que não estão ligados ao mercado de arte ou ao cenário institucional dos museus (confira aqui a programação completa). Isso também faz com que artistas emergentes não representados por galerias ou que não estão em grandes exposições possam também ter sua obra apresentada ao público. A iniciativa veio do Studi Festival, que aconteceu durante três anos em Milão. A cena efervescente da arte contemporânea em Lisboa fez com que seus organizadores trocassem a capital italiana pela portuguesa. Agora, o festival entra em sua segunda edição é totalmente gratuito e tem visitas guiadas até o dia 18 de maio.

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ENQUANTO ISSO, NO BRASIL

Em São Paulo, a feira SP-Arte é quem propõe uma programação semelhante de visita a ateliês. Durante a semana da feira em abril ou na semana da SP-Arte/Foto, em agosto, diversos artistas abrem seus espaços de produção, bem longe dos códigos existentes nos territórios pertencentes ao mercado da arte, como a própria feira e as galerias. Os ateliês espalhados por diversas partes da cidade se tornam pontos de encontro bem divertidos.

ONDE A MÁGICA NÃO ACONTECE

Um dos primeiros artistas a pensar na importância de expor seu estúdio publicamente foi Bruce Nauman. Ao lado de outros artistas conceituais, o americano queria mostrar que o artista não é um artesão superdotado, mas uma pessoa com uma boa ideia. É por isso que na década de 1960, ele começou a gravar vídeos em que desempenhava ações simples no seu ateliê, como andar em cima de um quadrado desenhado no chão, tocar violino ou se exercitar. Em Fracassando em levitar no estúdio, de 1966 , ele brinca com a ideia de que o artista tem poderes sobrenaturais: tenta levitar mas, é claro, não consegue (veja a foto acima). Ele quer provar que, no estúdio, não acontece mágica nenhuma: ali é um espaço de experimentação, tentativa, erro e muito trabalho!

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