No mês das mulheres, conheça a divertidíssima Bobby Baker

Nunca se falou tanto sobre o reconhecimento das mulheres no cenário mundial das artes. Antes tarde do que nunca, instituições brasileiras como o Masp e a Pinacoteca de São Paulo dedicaram suas programações anuais a produções femininas. Exposições como Radical Women, feito para o LACMA de Los Angeles trouxe à luz trabalhos de dezenas de latino-americanas que ficaram apagados durante décadas e outras como de Hilma af Klint questionaram a tradicional história da arte protagonizada por artistas homens. O #metoo viralizou mundialmente também nas artes visuais. Mas esse é só o começo do barulho até que nós, mulheres, sejamos legitimamente reconhecidas no cenário das artes (e em todos os outros contextos também, é claro). No mês das mulheres, apresento-lhes Bobby Baker:

Bobby Baker em vídeo sobre a mostra inglesa "Great & Tiny War"
Cartaz do "Epic Domestic", Partido Revolucionário Doméstico criado pela artista (Foto Julia Flamingo)

NÃO BRINQUE COM A COMIDA!

Mulher da classe média britânica, mãe, dona de casa, paciente psiquiátrica, vítima de câncer: Bobby Baker é uma super-heroína e ativista que, entre todos os afazeres diários e intermináveis, investe tempo e energia para ser artista. Como muitas outras que produziam artisticamente nas décadas de 1970 e 1980 (e até hoje…), ficou escondida até alguém decidir fazer uma exposição sobre seu trabalho – o incrível espaço cultural La Casa Encendida, onde eu por um acaso visitei enquanto estava em Madri na ocasião da feira ARCO. Foi cozinhando que Bobby Baker percebeu qual seria o ponto crucial da sua obra. Fazer tortas, de repente, deixou de ser uma tarefa do lar e virou algo rebelde: para subverter o lugar (preconceituoso) que as mulheres eram colocadas na época e ser finalmente reconhecida como artista num mundo permeado por homens, suas performances viraram verdadeiros banquetes em que a comida podia ser tinta, a tolha uma tela e a mesa, um palco. Ela passou a apresentar suas Tables Occasions para plateias com a qual dividia histórias da vida real e muito bem humoradas (assista aqui uma dessas performances e aqui uma entrevista com a artista)

Entenda: O que é performance?

MOMENTOS SUBESTIMADOS

“O humor e a sátira que me valeram para tornar acessível a minha obra, também fizeram com que os críticos não a levasse a sério”, conta a artista de 69 anos em plena atividade, no texto que escreveu para o catálogo da mostra Tarros de Chutney (em cartaz até 21 de abril). Seu pensamento feminista incomodou pelo fato de ela colocar capacete e joelheira nos vídeos hilários que produzia na sua cozinha. Na deliciosa série Time Drawings, ela se propôs a fazer desenhos durante um ano sobre alguma tarefa diária. Tirava sarro de situações que qualquer mulher passa ao cuidar de uma casa, a maternidade, as tensões entre o trabalho doméstico e profissional, praticar yoga, engordar, escolher uma roupa…e de todos os preconceitos absurdos que ela (e nós!) ainda era forçada a enfrentar.

LOUCO É QUEM ME DIZ!

Quando foi internada num hospital psiquiátrico depois de uma crise não-diagnostica, em 1997, Bobby começou a produzir a a série Diary Drawings, produção que continuou ao longo de 11 anos. Depois, descobriu um câncer. São 700 folhas de cadernos com crônicas de assuntos tabus como as experiências vividas por uma paciente sem voz frente às autoridades médicas, a sensação de ser observada o tempo todo, a humilhação, a necessidade de se mostrar forte perante a família, o tratamento de enfermeiros, a vergonha. É sensível e assertivo o tom que escolheu para desenhar e escrever. Em seu último trabalho, produzido este ano, ela propõe a criação de um Partido Revolucionário Doméstico (veja na foto acima), na qual ações revolucionárias irão clamar o valor do trabalho doméstico. Me sinto representada!

Assista: Artista é louco?