Escultura de Richard Serra fez jornada para chegar a São Paulo: entenda porque vale a pena o esforço

Duas placas de aço de 18 metros de altura e pesando 70 toneladas cada uma saíram de Châteauneuf, na França, com destino à São Paulo. Imagine só a trabalheira: a peça viajou de caminhão até a Mannheim, na Alemanha. Depois foi para o porto de Antuérpia, na Bélgica, para pegar um navio rumo ao porto de Santos. Ela ainda teve que subir a serra para chegar até o prédio do Instituto Moreira Salles, localizado na Avenida Paulista, que teve um trecho fechado. Tudo isso para que o centro cultural recebesse a primeira obra pública do americano Richard Serra. Por que o artista merece esse esforço todo?

Instalação Torqued Ellipses, de Richard Serra, no Dia Beacon, em Nova York (Foto: Julia Flamingo)

COMEÇOU PEQUENININHO…

É só chegar no IMS-SP a partir do próximo sábado (23) – quando Echo poderá ser vista pelo público – para perceber a monumentalidade da escultura e se sentir bem pequenininho e indefeso quando o assunto é a arte de Richard Serra (@richard.serra). Mas ele nem sempre construiu em grande escala: sua primeira obra de peso, Splashing, consistia em chumbo derretido que ele jogou entre a parede e o chão da galeria Leo Castelli, em Nova York, no ano de 1968. Foi um choque quando a exposição abriu para o público: o que poderia ser aquele chumbo endurecido, se não era uma escultura e muito menos uma pintura? Pode parecer uma obra simples, mas para a época era inovadora e assertiva, já que questionava todo o discurso tradicional da arte e do mercado. Ela não podia ser vendida e nem ser retirada dali: Serra revelava as condições materiais de uma obra de arte, seus modos de produção e de recepção, questionava a circulação dos objetos de arte, a relação e o poder das instituições.

…E VIROU MONUMENTAL

Serra nasceu em 1939, em São Francisco, foi assistente de Josef Albers no curso de artes da universidade Yale, onde acha que seu futuro como pintor seria promissor. Mas foi em Paris, mergulhado no ateliê do escultor romeno Brancusi, que começou a encarar a escultura como seu desafio de vida. Decidiu fazer uma lista gigantesca de verbos que remetiam a ações ligadas ao fazer escultórico: dobrar, amassar, cortar, dividir, cortar, expandir… a partir deles, produziu trabalhos em vários suportes que davam atenção ao processo de produção e não ao resultado final da obra. E isso foi bem importante para que ele começasse a produzir as obras que fizeram dele um dos escultores mais importantes do século 20!

EXPERIÊNCIA ESCULTÓRICA

O americano criou sua marca ao lidar com enormes chapas de aço e as remodelar. Ao lado de artistas como Gordon Matta-Clark (saiba tudo sobre ele no vídeo “Falando sobre ocupações”) e Robert Smithson, que saíram do estúdio para trabalhar na chave da escultura que cria lugares, constitui paisagens e muda a percepção do olhar humano sobre o espaço urbano, ele passou a produzir experiências escultóricas em que o público é convidado a passear por entre e ao lado de suas obras, onde cada passo revela uma nova perspectiva. Site-specifics como Torqued Ellipses feitos para o Guggenheim Bilbao e o Dia Beacon (na foto acima) levam pessoas do mundo inteiro a viajar quilômetros para ver com seus próprios olhos.

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DO CONTRA

Desde a Grécia antiga, se as esculturas lapidadas em mármore faziam o material parecer leve e refinado, tudo o que Serra faz é manter o estado bruto e pesado das suas obras. Se, na tradição da escultura, ela era feita para ser admirada de fora, nas de Serra elas são feitas para serem experienciadas. No pensamento tradicional, produzir esculturas com as próprias mãos era o que elevava a sabedoria do artista; já Serra, leva sua obra para uma escala industrial, desmistificando o ideal do artista-artesão. Ele inventou um novo glossário para a história da arte: está explicado porque uma obra sua merece uma verdadeira jornada internacional (agora programe-se e vá ver com seus próprios olhos)!

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