Velvet Buzzsaw: o verdadeiro artista outsider que inspirou o filme

Recém-lançado longa do diretor Dan Gilroy no Netflix, Velvet Buzzsaw faz caricaturas do mundo da arte numa história que está entre a comédia e o suspense. Jake Gyllenhaal faz o papel de um crítico de arte desses cujos textos podem glorificar ou acabar com a carreira de um artista – poder esse que já não existe mais nas mãos dos críticos atuais. Outros personagens encarnados por nomes como Zawe Ashton e Rene Russo mostram as trapaças e truques do mercado de arte – que não deixam de acontecer na vida real, mas são para lá de exagerados. A boa sacada do filme está na história de Ventril Dease, artista anônimo cujas pinturas foram encontradas na sua casa depois da sua morte. Ele é chamado no filme como “artista outsider” e faz lembrar a história real (não menos assustadora) de Henry Darger:

Jake Gyllenhaal e Rene Russo em cena do filme "Velvet Buzzsaw"
"The Vivian girls", de Henry Darger

LIXO EXTRAORDINÁRIO

Darger nasceu num bairro pobre de Chicago, em 1892 e, como o Dease do filme, carrega grandes traumas da infância terrível. Sua mãe morreu quando ele tinha 4 anos, alguns dias depois de dar à luz sua irmã. Seu pai era aleijado. Aos 8 anos, foi enviado para um lar de meninos católicos onde ficou até os 17. Assim como Dease, que foi internado num hospital, ele foi vítima de abusos durante anos.  Quando fugiu, encontrou um trabalho como faxineiro de hospitais, emprego que durou mais de 60 anos. O fim da vida de Darger também assemelha-se muito ao que é contado sobre Dease, no filme. Ambos viveram no anonimato durante décadas e foram encontrados mortos em seus apartamentos. Entre o lixo acumulado de muitos anos, as pessoas que acharam seus corpos desenterraram quadros desconcertantes, de uma criatividade sem igual e pinceladas hiper habilidosas.

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CIDADE SOLITÁRIA

Não sabemos exatamente quais imagens são pintadas por Dease nos quadros que aparecem no filme da Netflix e que hipnotizam todos os personagens. De Henry Darger sabe-se muito: suas mais de 300 telas e 15 mil páginas de textos (ele escreveu a mais longa ficção conhecida existente) constroem um planeta imaginário em que homens adultos escravizam crianças que vivem as mais horrorosas atrocidades. A autora britânica Olivia Lang descreve longamente a vida e obra de Darger no livro A Cidade Solitária: ela pesquisou os arquivos de Darger e outros artistas como Andy Warhol, Edward Hopper e David Wojnarowicz para entender a relação entre a produção artística e suas vidas introspectivas e solitárias. As descrições sobre as pinturas tão violentas e agressivas de Darger chegam a dar náusea – mas não deixa de ser pesquisa válida e bem interessante.

A PREÇO DE OURO

Em Velvet Buzzsaw, os acordos entre os personagens do filme transformam as recém-descobertas obras de Dease nas peças mais procuradas no mercado da arte. Incrível saber que as pinturas assustadoras de Darger, encontradas logo após a sua morte, em 1973, também vem alcançando cifras altíssimas nos leilões. Em 2001, o badalado curador alemão Klaus Biesenbach (@klausbiesenbach) fez a exposição Desastres da guerra, em que obras do Darger eram colocadas ao lado de pinturas do espanhol Goya. Na época, os quadros eram vendidos por cerca de 25 mil dólares, mas exposições como essa e incorporações de sua obra a coleções importantíssimas de museus fizeram com que suas peças atinjam quinze vezes esse valor!

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ARTE MARGINAL

Darger é o exemplo máximo do artista outsider – termo cunhado para descrever pessoas à margem da sociedade que produzem obras sem o benefício de uma educação em arte. Atualmente, se discute muito sobre a arte bruta – aquela produzida em hospitais psiquiátricos (assista aqui ao vídeo “Artista é louco?” e saiba tudo sobre o assunto) – ou sobre a produção de pessoas com deficiências mentais, presos, feitas em condições sociais miseráveis ou até em relação à arte popular e feitas por crianças. É muito importante chamar tudo isso de arte. Outra coisa é falar sobre gosto – eu mesma não consigo nem olhar para um quadro de Darger, mas sei que a discussão dá muito pano para a manga.

Assista: “Artista é louco?”