Hiper-realismo: para que copiar a vida real na arte?

É sempre impressionante olhar para uma escultura que de tão “perfeita”, parece que irá te responder se você falar com ela. Isso é o máximo do reconhecimento do ser humano numa obra de arte – o velho jargão de que “a arte é um espelho da vida”. Mas por que tamanha importância da representação da realidade na arte? Afinal, a arte não deveria nos mostrar coisas além do que podemos enxergar?

"Pettit", de 2009, assinado por Simon Hennessey, na exposição 50 anos de realismo no CCBB-SP (Foto: Sofia Saleme)
Pinturas "Conjuntura"e "K", de Craig Wylie, e escultura "Christine I", de John deAndrea, no CCBB (Foto: Sofia Saleme)
"Untitled (After Sam)", de Rudolf Stingel, no Whitney Museum, em Nova York (Foto: Julia Flamingo)

A TÉCNICA SUPERA A ABSTRAÇÃO

Em cartaz até o começo de janeiro no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, a exposição 50 anos de realismo fez qualquer um ficar embasbacado frente aos trabalhos que representam corpos humanos, cenários urbanos e paisagens nos mínimos detalhes. As pinturas mais parecem fotos, e as esculturas, seres vivos. A mania pelo realismo surgiu principalmente a partir da década de 1960, com o fotorrealismo, quando alguns artistas americanos pintavam a partir de fotografias que tiravam. Assim como a arte pop, o fotorrealismo queria trazer cenas cotidianas para os trabalhos. E, mais do que isso, o que artistas como Chuck Close (@chuckclose123) e Richard Estes queriam era enaltecer a técnica. É como se eles dessem um novo sentido à fotografia (e à visão) ao pinta-la e transforma-la num objeto único.

SUA ATENÇÃO, POR FAVOR

Depois de anos em que o improviso e a espontaneidade eram os aspectos mais valorosos na arte (pense nas pinturas viscerais de Jackson Pollock), o fotorrealismo queria mesmo valorizar o artesanal, o detalhe, o trabalho manual e minucioso. O italiano Rudolf Stingel, por exemplo, “apenas” pintou a si mesmo deitado na cama (veja na foto acima). No meio de uma exposição, você dá de cara com uma pessoa gigantesca relaxando no colchão: sua experiência com a obra poderia terminar aí mas, se dedicar um pouco de atenção, o elemento surpresa (“Nossa, não é uma fotografia, é uma pintura!”) faz você gastar mais tempo admirando o trabalho. Para conseguir este feito, este e outros artistas como Ben Johnson, Andrés Castellanos (@castellanos.art) e Craig Wylie (@craigwyliepainter), que integraram a mostra do CCBB, usam artimanhas específicas: eles transferem a imagem da fotografia para a tela usando um projetor, quadriculam a imagem para saber em que pedaço da pintura irão se focar e usam ferramentas como o airbrush – um pincel que tem efeito de spray e não toca na tela.

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ESTÁTUA!

Na década de 70, alguns artistas também começaram a trazer o hiper-realismo para a escultura. Eles queriam representar fielmente a figura humana sem endeusar sua beleza e perfeição como faziam os clássicos. John deAndrea (veja a escultura na galeria de imagens) e Peter Land são bons exemplos desse tipo produção, além de Giovani Caramello (@giovanicaramello), paulista de Santo André de 28 anos – o único hiper-relista brasileiro quando o assunto é este suporte. As obras Sozinho e Diálogo, por exemplo, que foram expostas no CCBB, são esculturas de meninos magrelos e solitários como se congelasse um breve momento. Assim, este tipo de arte também tem a vontade de tornar permanente e interminável o efêmero da vida.

ESPELHO DA TECNOLOGIA

Se o realismo espelha a sociedade e cultura de uma época, ele também é reflexo do seu desenvolvimento tecnológico. É por conta de impressoras 3D, por exemplo, que Giovani Caramelo conseguiu projetar suas obras e devido a computadores super avançados e que o australiano Ron Mueck (@ronmueckart), que virou fenômeno no Brasil depois da exposição bombástica da Pinacoteca de São Paulo e MAM-RJ, em 2014, pôde incluir cada poro na pele e rugas nas mãos de suas criações. A tecnologia está aliada aos artistas, mas eles não podem se render a elas: têm de desafia-las até que se forme uma nova onda da produção realista.

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