Pode um vídeo feito no celular ganhar um dos maiores prêmios da arte?

Até o início desta semana, Charlotte Prodger nunca havia aparecido em manchetes de jornais. A surpresa foi grande quando, na última terça (11), seu nome foi anunciado publicamente como ganhadora do Turner Prize. A escocesa não é representada por uma grande galeria, não tem site oficial da sua produção e está longe de ser um nome presente nas rodas de conversa de diretores de museus e colecionadores. A surpresa veio, ainda, em dobro: o vídeo que a condecorou foi totalmente feito com a câmera do seu celular. Qualquer um pode produzir um vídeo com o seu próprio aparelho como artista “anônimo”: o que chama atenção no trabalho de Charlotte Prodger?

Trecho do filme "Bridgit", de Charlotte Prodger

AUTOBIOGRAFIA CASEIRA

A escocesa Charlotte Prodger tem 44 anos, começou a fazer vídeos no celular há três, não usa whatsapp (mas tem uma conta no Instagram: @charlieprodger) e diz não conseguir entender o que é a nuvem (não a culpo!). Apesar disso, sem aparentemente ser ligada à tecnologia, o júri alegou que ela usou o celular “da maneira mais profunda que nós vimos na arte até hoje”.

O ganhador Bridgit é um filme de 33 minutos gravado nos arredores da casa de Charlotte, entre belíssimas paisagens escocesas (assista aqui a um trecho com entrevista). Feito sempre a partir do seu ponto de vista, as imagens mostram campos intermináveis ou longas viagens de trem e navio e são complementadas com a narrativa da artista, que conta em episódios nada lineares sobre ser abertamente gay e como foi o processo de aceitação no contexto da Escócia interiorana depois de ter saído do armário. A câmera de celular muitas vezes trepida, é atrapalhada pelo vento forte ou sobe e desce junto ao ritmo da sua respiração. A ideia de Charlotte foi usar o próprio celular para fazer sua autobiografia e não lançar mão de uma câmera profissional para captar imagens exuberantes. É pessoal, caseiro e singelo: uma procura pelo seu espaço, tanto no que concerne os lugares por onde passa como uma busca pela sua identidade.

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FALTA ORIGINALIDADE?

A proposta não é novidadeira e, por isso, a polêmica entre os críticos foi grande. Uns alegam a sensibilidade ao tratar sobre o tema da homossexualidade e aceitação. Outros, porém, falam sobre a falta de refinamento e originalidade, enfatizando ainda a monotonia. Não podemos negar que em tempos de #MeToo, um trabalho feito por uma mulher gay e ativista confere um peso político ainda maior ao seu trabalho e ao prêmio. Por outro lado, não se pode resumir a escolha do júri a esses critérios e correr o risco de tirar o mérito da artista: é estimulante pensar que para uma obra de arte ser considerada merecedora de um grande prêmio, ela não precisa ter sido feita por um nome já conhecido, envolver materiais caríssimos e produções gigantescas. Charlotte começou a ter contato com arte contemporânea aos 23 anos depois de ter feito trabalhos em uma hamburgueria e uma call centre e, então, topar posar como modelo vivo. Ela parece ser gente como a gente.

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ENTÃO EU TAMBÉM POSSO PARTICIPAR DO PRÊMIO?

O Turner Prize existe desde 1984, é ligado ao museu londrino Tate Gallery e premia anualmente um artista nascido na Grã-Bretanha, ou que more lá, com 25 mil libras e status para o resto da vida. O nome do prêmio vem do artista William Turner, que morreu em 1851 e pintou algumas das paisagens mais aclamadas da história da arte (para saber mais sobre ele, vale assistir ao filme Sr. Turner). Os jurados convidados para cada edição devem selecionar quatro nomes, que participam de uma exposição na Tate. No final do ano, o diretor da instituição determina o grande ganhador, anunciado numa festa daquelas que só os ingleses sabem fazer.

FUTURO CERTO

O prêmio teve seu auge nos anos 1980 e 1990: Gilbert & George, Richard Long, Anish Kapoor (@dirty_corner), Rachel Whiteread, Antony Gormley e Damien Hirst (@damienhirst) figuram até hoje como alguns dos artistas mais relevantes do mundo. Quanto à Charlotte, não deve demorar para que ela feche uma representação com uma grande galeria e passe a vender seu trabalhos por valores bem altos. Ela também vai representar a Escócia na Bienal de Veneza do próximo ano. Com um vídeo feito no seu Iphone, é claro!

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