Morre o artista minimalista Robert Morris: e o que (raios) é o minimalismo?

“Morre o artista minimalista Robert Morris” é a manchete que vem saindo em jornais do mundo todo, por conta do falecimento do americano na quarta (28). Longos textos e coberturas mostram que ele foi um artista bem importante, mas os títulos vêm sempre acompanhados pela palavra “minimalista”. O termo já passou até pelo discurso de Kanye West que, certa vez, em entrevista ao The New York Times, disse que era “um minimalista no corpo de um rapper”. E o que, então, é o minimalismo?

Walter de Maria, em Naoshima, no Japão (Foto: Sofia Saleme)
Sol Lewitt na Paula Cooper Gallery, em Nova York, no ano de 2013 (Foto: Julia Flamingo)

ECONOMIA DE MATERIAIS

Quando Carl Andre apresentou uma instalação retangular composta por 120 tijolos no chão de um espaço expositivo em 1966, o contexto da galeria e sua autoridade elevaram esses objetos ao status de arte. Mas não é só por isso que o trabalho chocou. Equivalent III ia contra todos os cânones da escultura. Primeiro porque usava tijolos no lugar de mármore ou bronze, materiais tradicionais nesse tipo de suporte. Segundo que Andre tirou o pedestal e apresentou a escultura literalmente no chão. Ele tornou a peça mais próxima, acessível, banal. O trabalho foi uma tentativa de mudar a noção tradicional da escultura na história da arte: a de que ela deveria representar o mundo, deveria cumprir um papel, ser uma obra quase exemplar. Mas por que uma escultura não poderia representar apenas ela mesma e pronto?

REJEIÇÃO AO CONTEÚDO

Robert Morris, Donald Judd, Dan Flavin e Sol Lewitt formaram, ao lado de Carl Andre, a nata do minimalismo, que surgiu nos Estados Unidos dos anos 1960. O termo criado pelo filósofo Richard Wollheim, em 1965, se referia aos artistas que limitaram seus trabalhos a formas geométricas e cores simples, querendo focar muito mais no meio (do que a instalação era feita) do que na mensagem (seu conteúdo). Assim, eles queriam falar sobre a cor, o material e a superfície. Muito mais do que serem superficiais ou simplistas, eles conseguiram com isso mexer com a noção da verdade numa obra de arte. Se, até então, as obras faziam referência a uma narrativa ou a um ponto de vista , a obra minimalista se limitava à experiência estética. Ou seja, a verdade é aquilo o que se vê e ponto final.

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QUANTO MAIS SIMPLES É O TRABALHO, MAS COMPLEXO É O COMENTÁRIO

O grande feito de Robert Morris, que faleceu aos 87 anos, vitima de pneumonia, foi levar o minimalismo à risca nas suas esculturas, mas também extrapolar o pensamento para suas performances e dança. Ele começou estudando engenharia, o que contribuiu para um raciocínio lógico, que coloca a matéria e a forma em primeiro lugar. Depois, foi migrando para a arte e filosofia, e produziu trabalhos como um labirinto gigante e esculturas feitas de espelhos, que mudavam totalmente a relação do espectador com o espaço, a luz e as formas que o rodeavam.

ESCULTURA É ESPAÇO

Eles queriam dizer que a arte é uma proposta de ver as coisas sobre novos pontos de vista e que isso pode ser realizado com qualquer material. Um exemplo literal é Fred Sandback, que criou uma instalação a partir de um único fio, esticado entre duas paredes e uma quina: ele conseguiu desmaterializar a escultura a tal ponto que ela transformou-a numa linha no espaço (e que provoca ilusão de ótica). Artistas como ele influenciaram o modo de pensar a escultura até hoje. Eles começaram a pensar na relação da escultura com o espaço e isso mudou os rumos da arte. A mostra Space Shifters, em cartaz até 6 de janeiro, na Hayward Gallery, de Londres, reúne alguns nomes atuais hiper influenciados por esse pensamento, de Yayoi Kusama a Anish Kapoor.

(E o que o Kanye West quis dizer ao referir-se a si mesmo como minimalista? Isso não sei responder…)

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